8 de novembro de 2011

Pearl Jam - Show do ano?





Fiquei pensando desde quinta-feira-passada, logo depois que saí do Morumbi, como iria transmitir aos leitores do Blog a minha experiência com o Show do Pearl Jam. Quando li a coluna do Jotabê Medeiros, no “Estadão” vi exatamente o que eu gostaria de ter escrito. Portanto, repasso a coluna na íntegra para que vocês possam entender (pelo menos um pouco), do que foi o espetacular show de 03/11/11 no Morumbi.


“As imagens na tela sempre em branco e preto, como a reafirmar a essencialidade da cultura noir, da arte sem afetação ou efeitos milionários. Mas não se tratava de um filme, era o telão do show do Pearl Jam no Morumbi, e o que se viu foi também tão fundamental quanto um livro de Raymond Chandler ou um filme de John Huston.

Cerca de 50 mil pessoas viram o concerto de quinta, e na saída do estádio umas 100 pessoas já dormiam na porta para o show de sexta. Pela primeira vez na vida, é possível pensar que a vigília estava coberta de razão. Foi um show antológico.

Abrindo com Release (última faixa de seu disco de estréia, Ten, de 1991), às 21:15, o Pearl Jam conduziu uma cascata de som quase sem pausa, 26 músicas tocadas e cantadas com entrega total de seus integrantes. O grupo não só ilustrou a formidável resistência do rock básico em duas décadas de estrada, mas também fez um tributo ao despojamento e sinceridade do punk rock, tocando Come Back em homenagem a Joey Ramone e, na seqüência, tocando I Believe In Miracles, do próprio Ramones, com uma abordagem reverente, quase religiosa.

O Pearl Jam fez do show um tipo de manifesto da sua crença musical. O punk rock esteve presente o tempo todo, fosse na execução de um originador do gênero, Neil Young (na clássica Rockin’ In A Free World); na abertura do concerto com o grupo californiano histórico X, referência do gênero; e até no formato ultra básico de uma novíssima canção, Olé (que vai entrar em álbum de 2012).

Eddie Vedder parece que elevou o berro a uma espécie de categoria melódica. Sua entrega em cena, mais o auxílio luxuoso de uma guitarra barroca, a de Mike McCready (verdadeira estrada almofadada atravessando uma montanha rochosa), alucinaram a noite gelada da paulicéia. “Felizes por estar em São Paulo. Obrigado por nos trazer de volta. Vocês estar bem aí?”, disse Vedder, em português. O show foi muito mais energético e vertiginoso do que o último que a banda fez no país, em 2005 (naquela ocasião, tocaram 28 músicas). Em dado momento, Vedder pediu para ver o público e as luzes se acenderam, e ele pediu por segurança para todos.

No Morumbi, o primeiro coro coletivo, imenso e hipnótico, foi quando a banda tocou Even Flow.

Os hits são muitos, apesar de o Pearl Jam nunca ter sido uma banda de refrões fáceis e radiofônicos: Do The Evolution, Black, Comatose, The Fixer. Just Breathe fez as meninas se esgoelarem. Apesar do set list estenso, houve quem reclamasse da ausência de Yellow Ledbetter.

Há uma tentativa exacerbada na música do Pearl Jam, um esforço romântico clássico, de se colocar o sentimento acima das limitações da vida cotidiana. Essa capacidade transgressiva sobrevive intacta na voz de Vedder, um sujeito que furou a bolha do rock system e foi em busca da verdade da música, gravando inclusive com o paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan.
No segundo bis, era possível ver Vedder pendurado numa das beiradas do palco, pendendo pelo braço como se estivesse andando de bonde, e fitando o público demoradamente, Vindo do grunge, esse cara aprendeu como manter a alma aquecida em cima de um palco. Coisa rara.”

Abraços a todos.

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